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Trajetória

A PROMESSA DE UM NOVO ENCONTRO

Na madrugada de segunda-feira, 6 de outubro de 2002, José Guimarães teve a certeza de que estava eleito deputado estadual. Ele ainda se encontrava em seu comitê eleitoral, acompanhando os números da apuração divulgados de hora em hora pelo Tribunal Regional Eleitoral desde a noite do dia anterior, após o fim da votação.

Sua situação na chapa do PT era tranqüila. Mantinha a quarta colocação para uma projeção de cinco eleitos pelo partido no Ceará. Tomou uma cerveja em uma comemoração rápida, sem se desviar da apuração dos votos, ele que acumulara tantos trabalhos naquelas eleições que agora apresentavam seus resultados. Além de administrar a própria campanha a deputado estadual, participara ativamente das coordenações da campanha do candidato à presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva no estado e da campanha de José Airton ao governo do Ceará.

Lula liderara as pesquisas eleitorais desde o começo da campanha, o que tornava certa a sua passagem para o segundo turno da eleição presidencial. Guimarães, por outro lado, não alimentara esperanças na situação de José Airton, até o dia das eleições. Naquela madrugada, porém, os números insistiam em desautorizar prognósticos pessimistas. Foi para casa, exausto, antes mesmo de conhecer o quadro definitivo da situação. Dormiu às 5 horas da manhã. Um cochilo, apenas.

Ao despertar ligou a tevê no instante em que o apresentador do noticiário local anunciava que José Airton iria disputar o segundo turno com Lúcio Alcântara, o candidato do PSDB. A partir daquele instante, Guimarães se dedicou a formar o que ele considera a maior aliança política do Ceará. Acreditava vivamente na vitória de José Airton, pois percebeu que estava acontecendo naquele momento histórico o que havia acontecido em Fortaleza, em 1985, com Maria Luíza Fontenele, e em 1986, na eleição de Tasso Jereissati para o governo do estado. Não era chute, mas fruto de uma habilidade de avaliar situações eleitorais que começou a adquirir anos antes, exatamente em 1989.

No final dos anos 1980, o PT ainda era um partido pequeno, notadamente no Ceará, onde contava apenas dois deputados estaduais, a prefeitura de Icapuí e alguns poucos vereadores em um número reduzidíssimo de municípios. A situação do partido na maioria dos estados brasileiros não era muito diferente, o que tornava completamente imprevisível o desempenho do candidato Luiz Inácio Lula da Silva nas primeiras eleições diretas para presidente da República após 29 anos.

Essa imprevisibilidade não animava ninguém a assumir a campanha de Lula no Ceará, ainda mais quando se levava em conta as dificuldades que seriam enfrentadas pelas condições absolutamente franciscanas daquela empreitada. Era preciso ter um nome e a escolha do diretório do PT cearense recaiu sobre José Guimarães, indicado para coordenar a eleição presidencial no estado, com a colaboração dos nomes indicados pelos partidos aliados – Gilse Avelar, do PC do B, Valton Miranda e Eudoro Santana, do PSB, que indicara o senador gaúcho José Paulo Bisol para candidato a vice-presidente na chapa de Lula.

Guimarães não refugou a missão e fez uma campanha heróica, percorrendo o estado de ônibus e até em garupa de motocicleta, para organizar comitês e massificar a campanha. O resultado foi compensador – em um universo absurdo de 22 candidatos a presidente, Lula chegou ao segundo turno das eleições, suplantando Leonel Brizola, do PDT, e Mário Covas, do recém-criado PSDB, o PT consolidou uma posição de partido maduro e de massas e Guimarães se firmou definitivamente como liderança incontestável do PT no Ceará. Lula, porém, ainda disputaria outras três eleições para, finalmente, conquistar a presidência da República em 2002.

A vida partidária continuava: em 1990 aconteceriam eleições estaduais e o deputado estadual João Alfredo assumiu a candidatura a governador do Ceará. O eleito naquele ano foi Ciro Gomes, do PSDB. No início de 1991, João Alfredo renunciaria à presidência do PT, levando o partido à crise. Guimarães era secretário executivo e formou a junta governativa que assumiu a direção do partido, ao lado de Geraldo Acioly e Sueli Duarte. Tornavam-se cada vez mais claras as condições de Guimarães assumir a presidência do PT cearense, o que aconteceria no início de 1992, depois de uma disputa com Adelaide Gonçalves e Eudes Bayma, no encontro estadual do partido.

Não havia dúvidas de que Guimarães tinha acumulado experiência suficiente para presidir o PT, embora ainda fosse muito jovem para assumir um partido daquele porte. Foi um período de dedicação total à legenda, de muito esforço para torná-la maior ainda no Ceará. Conseguiu. José Guimarães havia recebido o PT com 40 diretórios municipais formados e, no fim do seu primeiro mandato, o partido já contabilizava mais de 80 diretórios.

Reconduzido à presidência do PT em 1994, Guimarães articulou uma manobra ousada para aquele ano eleitoral – uma aliança estadual com o PSDB de Tasso Jereissati. O namoro começou por ocasião da crise em que se envolveu o setor de segurança pública do governo Ciro Gomes, então tucano, quando um trabalhador foi encontrado manietado em uma delegacia de polícia em Fortaleza e exibindo claros sinais de tortura.

O episódio derrubou o secretário de Segurança e os interlocutores entre o governo e a sociedade foram algumas das principais estrelas do PT cearense – além do próprio Guimarães, Ilário Marques, João Alfredo e Mário Mamede. A relação entre Ciro e o PT se estreitou e o governador bancou a aliança entre os dois partidos para a eleição estadual, com o PT indicando o candidato a vice-governador na chapa encabeçada por Tasso Jereissati. O ex-governador mantinha, na época, relação muito cordial com Lula, no plano nacional. A idéia era iniciar no Ceará uma articulação nacional para a aliança entre o PT e o PSDB em torno da candidatura de Lula a presidente.

As negociações caminhavam quando o presidente Itamar Franco indicou como candidato à sua sucessão o seu ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, do PSDB. FHC empolgou-se com a idéia da candidatura e a aliança começou a fazer água, até que foi definitivamente sepultada quando o encontro nacional do PT desautorizou a coligação com o PSDB no Ceará. Para as eleições, então, foi formada uma coligação de partidos de esquerda, unindo PT, PSB, PPS e PCdoB, que foi mais eficaz na eleição proporcional do que na majoritária.

Candidato a deputado federal, Guimarães ficou com a segunda suplência. O fraco desempenho deixou o partido fragilizado. Ele e Mário Mamede foram vítimas de uma campanha difamatória dentro do próprio PT, por terem defendido a aliança com os tucanos.
Nas eleições internas de 1995, Guimarães foi aconselhado a não disputar, por causa do desgaste que havia sofrido. Não deu ouvidos e foi mais uma vez para o embate pela presidência do PT, com o apoio de Ilário Marques, Mário Mamede, José Airton e Dedé Teixeira. A disputa foi intensa e, no dia seguinte à eleição, o jornal O Povo estampava em manchete: “Petistas reelegem Guimarães e derrotam Artur Bruno, José Pimentel e João Alfredo”.

Nas eleições de 1998, o PSDB flanou nacionalmente, desempenho semelhante ao apresentado por Tasso Jereissati na disputa pelo governo do Ceará. Era a primeira vez que a reeleição valia para presidente e governador. Mas nem Fernando Henrique Cardoso e nem Tasso tiveram de enfrentar um segundo turno de eleições. Ainda assim, no Ceará FHC ficou em terceiro lugar, atrás de Ciro Gomes, que disputara a presidência da República pelo PPS, e de Lula. O PT aumentou uma cadeira na sua bancada legislativa estadual e Guimarães conquistou a primeira suplência.

Em 2000, com a eleição do deputado estadual Ilário Marques para a prefeitura de Quixadá, Guimarães assumiu definitivamente a vaga na Assembléia Legislativa durante aquela legislatura. No ano seguinte, após nove anos, desde que assumira a direção estadual do PT, Guimarães não disputou mais a presidência do partido, mas apoiou o candidato vitorioso, o então vereador por Fortaleza José Airton Cirilo.

Foi o grande ano do PT em toda a sua história. Lula disputaria pela quarta vez consecutiva a presidência da República e desde dezembro de 2001 liderava as pesquisas de intenções de voto. Seria daquela vez. Em um café da manhã de trabalho em Fortaleza, que reuniu Guimarães e outras lideranças locais do PT, Lula foi categórico: “Deputado Artur Bruno, eu preciso de você como candidato a governador do Ceará”. Bruno ficou de avaliar o convite, mas depois impôs condições que não tinham como ser atendidas pelo partido.

Convocado também pelo próprio Lula para coordenar a campanha no estado, Guimarães sondou José Airton, que aceitou participar das prévias do partido, obtendo 60% dos votos para candidato a governador. Lula, no plano nacional, e José Airton, na disputa local – Lúcio Alcântara, do PSDB, ficou a 0,11% dos votos válidos de vencer no primeiro turno –, chegaram ao segundo turno. Seria uma nova eleição, de tiro curto, para a definição dos vitoriosos.

Guimarães, já eleito deputado estadual, foi o grande articulador de uma ampla aliança em torno dos dois candidatos no Ceará, reunindo quase todas as grandes lideranças políticas do estado – Eunício Oliveira e Sérgio Machado, que se candidatara a governador, do PMDB, Wellington Landim, que disputara o governo do estado pelo PSB. Lúcio teve o apoio de Ciro Gomes, do PPS, e de Juraci Magalhães, prefeito de Fortaleza, do PMDB. Todos, porém, eram Lula, que, ao final da apuração, havia conquistado mais de 70% dos votos válidos do eleitorado cearense.

A frustração foi ver José Airton derrotado por pouco mais de 3 mil votos, resultado até hoje contestado pelos petistas. Mesmo assim, é inegável a votação histórica obtida pelo partido no Ceará.

Em 2004, Guimarães viveu uma situação inédita em sua militância no PT. Para cumprir uma missão da direção nacional do partido, apoiou a candidatura de Inácio Arruda, do PCdoB, ainda que o seu partido disputasse a eleição com a candidata Luizianne Lins. Não foi fácil para ele aceitar a orientação nacional e chegou a dizer que aquela posição era equivocada. Guimarães conversou com Luizianne durante a campanha e ela o convencia de que, contra todos os prognósticos, estaria no segundo turno das eleições. Não deu outra.

De imediato Guimarães manifestou seu apoio àquela que seria eleita a segunda prefeita do PT em Fortaleza. Para as eleições de 2006 novos desafios se apresentam – a reeleição de Lula presidente do Brasil, a eleição de Cid Gomes, o candidato das oposições para governador do Ceará. E se tudo correr como planejam Guimarães, no Ceará, e seu irmão José Genoíno, em São Paulo, em 2007 eles terão um novo encontro, bem menos dramático do que aquele ocorrido em 1976, no presídio Paulo Sarasate, em Fortaleza – desta feita, o encontro poderá acontecer em Brasília, na Câmara dos Deputados, como parlamentares do PT eleitos pelos seus estados.