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Trajetória

O EXEMPLO QUE VEIO DE CIMA

Hora do recreio. Antonieta, a merendeira da escola, aborda um dos alunos. Um molecote de 14 anos:

- Gilberto, tenho um assunto urgente pra falar com você. Por favor, me espere hoje à noite, depois da aula.

Intrigado, Gilberto apenas assente com a cabeça. Conversava freqüentemente com Antonieta, mas aquela situação era inédita. Um assunto urgente? Que assunto? Não pensou mais sobre o episódio.

Antonieta era uma espécie de missionária que se empregara como merendeira na escola de freiras de Senador Pompeu pela pronta intervenção do padre Salmito, velho amigo da família de Gilberto e que o encaminhara e aos irmãos aos estudos naquela mesma escola.

Gilberto agora tinha um envelope às mãos com um carimbo que identificava a procedência – Casa de Detenção de São Paulo - Carandiru. Antonieta encontrara o estudante na cantina, à noite, conforme o combinado, e entregara-lhe o envelope lacrado.

- Leia. Não fale com ninguém. Leve pra casa.


Não havia mais dúvidas. Era uma carta de Genoino, o irmão mais velho que havia nove anos não dava notícias. Estava vivo, contra todas as especulações da família. Gilberto teve um choque. Medo e alegria. A recomendação de Antonieta fora clara, quando perguntou como a carta chegara até ela. Vivia-se o final do governo Médici, os militares estavam à espreita, era prudente evitar atitudes que pudessem levantar suspeitas. Era o dia 25 de março de 1974 – dali a alguns dias o regime lembraria com ufanismo os dez anos do golpe militar. Gilberto estava em pânico.

Às 5 horas da manhã, com a carta no bolso, iniciou a corrida de 12 quilômetros, a pé e em estrada de terra, até a localidade de Várzea Redonda, no distrito do Encantado, município de Quixeramobim, onde a família morava. Tinha medo da polícia, tinha medo de que algo de ruim pudesse acontecer aos pais e aos irmãos.

Já em casa, foi recebido pela mãe, dona Maria Laís, com repreensões por estar perdendo aula. Arranjou uma desculpa para ter faltado à escola, sem convencer a mãe, mas não conseguiu falar a verdade e contar sobre a carta – se teve um choque, imagine a reação da mãe ao saber da carta, ela que já se conformara com a morte de Genoino e rezava nos dias santos pela alma do filho perdido. Muito jovem ainda, Gilberto não queria aquele papel. Foi então que chamou a irmã Laíde para apanhar algodão. Na plantação, sentaram-se a uma sombra e passaram a ler a carta de Genoino.

Os dois estavam emocionados, silenciosos, mas emocionados.

Terminaram a leitura e não chegaram ao consenso sobre como informar a mãe. Gilberto permaneceu no roçado, enquanto Laíde voltou para dentro de casa e iniciou uma conversa mole, cheia de arrodeios, com dona Laís. “Não sei por que, mas lembrei do Genoino. Lembra dele, mãe?”. Dona Laís desconversava. Ficaram nessa lorota quase o dia inteiro. Somente lá pelas 4 da tarde a carta finalmente apareceu. Dona Laís foi ler no quintal, mas a emoção foi tamanha que os dois filhos tiveram que ampará-la. Da família, só cinco pessoas tomaram conhecimento da carta – dona Laís e o marido, seu Sebastião, Gilberto, a irmã Laíde e Francisco Aldenor, um tio de idéias políticas de esquerda. Assim a família conseguiu manter o sigilo necessário para a ocasião.

José Genoino Neto é o primeiro dos 11 filhos de Sebastião Genoino Guimarães e Maria Laís Nobre Guimarães. Nascido em 1946, aos 11 anos já enfrentava junto com o pai as frentes de trabalho durante a seca de 1958 para garantir comida para os irmãos mais novos. Aos 14 anos deixou a casa dos pais e foi morar com o padre Salmito em Senador Pompeu para concluir o ginasial. O curso secundário ele fez em Fortaleza e, em 1965, visitou a família pela última vez antes de ser preso como guerrilheiro, em abril de 1972, na região de Xambioá, no Araguaia.

Como o irmão mais velho, Gilberto, o sexto filho, nascido em 1959, desenvolveu o gosto pelos estudos. Também como o irmão, antes de completar 10 anos de idade, já pegava na enxada para ajudar o pai no roçado de feijão e milho de onde a família tirava parte do sustento. A outra parte vinha do salário de dona Laís, professora municipal e responsável pelo ensino das primeiras letras aos filhos. Gilberto era um filho realmente obediente e dedicado à família. Quando as irmãs Lair e Liduina ainda eram bebês, cuidava das meninas enquanto a mãe estava fora, ensinando na escola local. Quando dona Laís chegava em casa, as duas crianças estavam alimentadas e o almoço já estava pronto. Era um agrado para a mãe que o ensinou a ler e escrever.

Alfabetizado, Gilberto não abandonava a leitura e o estudo nem mesmo quando estava na labuta diária na roça. Levava junto o livro, que lia no intervalo para o rancho – arroz, feijão e farinha que as irmãs traziam. Isso até o dia em que, diante de Sebastião, encostou a enxada de lado.

- Pai, de hoje em diante não pego mais em enxada. Quero estudar.

Seu destino era Senador Pompeu. Queria ajudar a família a sair da miséria em que viviam – o mesmo impulso que levou Genoino seguir o seu caminho. Foi na escola de Senador Pompeu que, anos mais tarde, Gilberto recebeu a carta do irmão preso.

Durante o tempo em que permaneceu em Senador Pompeu estudando na escola das freiras, Gilberto morou de favor na casa de uma amiga de sua mãe e provia o próprio sustento com um emprego de contínuo em hotel da cidade. Em dezembro de 1976, ele recebeu uma nova carta de Genoino.

“Estou preso agora em Fortaleza. Aqui cheguei em novembro de 75. Essa transferência foi forçada e trouxeram-me contra a minha vontade. Isso foi mais uma injustiça. (...) Tudo o que vivi aí continua vivo em minha memória, como o sofrimento e a exploração a que estamos submetidos. Isso é uma das razões que me impulsionam a continuar na luta para acabar com a opressão do nosso povo”.

Quase 11 anos haviam se passado desde a última vez em que Genoino estivera com a família. Agora, morando mais perto, ainda que na cadeia, era a chance de revê-lo. Em comitiva, dona Laís, Gilberto e Laíde viajaram até o Instituto Penal Paulo Sarasate, onde eram confinados os presos políticos do regime.

Daquela vez, porém, a entrada deles não foi permitida. Dona Laís entendeu errado o transtorno e caiu em desespero – todo aquele teatro serviria para esconder dela a morte do filho; Genoino nem ali estaria, mas, sim, morto. Pedia que não fizessem aquilo com ela, que não escondessem nada, do contrário sofreria ainda mais. Gilberto até suspeitou que a mãe tivesse razão, mas intimamente uma certeza indicava o oposto, pois percebeu entre as pessoas que entravam para a visita gente de classe média, bem vestida, educada – não pareciam visitantes dos presos comuns, não tinham esse perfil.

Gilberto compreendeu, até hoje sem saber o porquê daquela dedução, que eram parentes dos presos políticos ali encarcerados.

Frustrado na tentativa de visitar o irmão preso, Gilberto contou o episódio no hotel em que trabalhava em Senador Pompeu. Quem ouviu a história foi Francisco José, um agrônomo que freqüentemente se hospedava ali.

- Genoino está mesmo preso no Paulo Sarasate, não duvide disso. Eu te levo lá.

Quinze dias depois, pouco antes do Natal, Gilberto viajou de ônibus para Fortaleza a fim de encontrar Francisco José, que fez o contato com o presídio. Dormiu na casa do agrônomo e, no dia seguinte, um sábado, foi visitar o irmão.

Naquela ocasião, Gilberto conheceu pessoas com as quais se relacionaria dali para frente, com algumas muito proximamente. Foram os familiares dos presos políticos que o receberam – os de Fabiane Cunha, de Williame Montenegro, de Valdemar Menezes, do Otávio Menezes, do Mário Albuquerque, a Maria Luiza Fontenele e a Cristina Fonseca. Havia quase uma festa naquele pavilhão – tinha bolo e comida que as famílias traziam e numa vitrola tocava a música “Apesar de Você”, de Chico Buarque. Era uma grande confraternização e de imediato Gilberto entrou no clima. Genoino estava lá, magro e uma barba escura. Reconheceu o irmão.

- Diga lá, meu!

Gilberto tremeu e sentiu um engasgo enquanto abraçava Genoino e recebia tapinhas nas costas. Ali todo mundo participava da conversa. O almoço foi servido – carne, arroz e salada que as famílias traziam.

Depois, Genoino convidou o irmão para conhecer a sua cela. Subiram o pavilhão até um cubículo com um buraco no canto que fazia as vezes de banheiro. Foi aí que tiveram oportunidade de conversar sozinhos. Gilberto contou como estava a família, que concluíra o colegial em Senador Pompeu e estava determinado a cursar o ginasial em Fortaleza para prestar vestibular.

Genoino elogiou a decisão e, mesmo que o irmão não tivesse uma direção, aquele gesto fortalecia muito os ideais revolucionários dele. Aconselhou-o a procurar hospedagem na Casa do Estudante e a arranjar um trabalho. Genoino ainda deu de presente ao irmão mais novo uma saboneteira e uma toalha grande. Por fim, pediu a Gilberto que adiasse o retorno a Senador Pompeu e viesse visitá-lo na segunda-feira seguinte.

Nessa segunda visita, sem festa, os dois conversaram muito mais e Genoino entregou a Gilberto uma carta e um presente para a mãe deles – uma pirogravura que mostrava uma mulher segurando uma corrente. Já em casa, quando disse para a família que havia conversado e tocado em Genoino e apresentou a carta e a pirogravura, finalmente todos acreditavam que ele estava realmente vivo e, por insistência de Gilberto, dona Laís finalmente conseguiu ver o filho preso.

Em Senador Pompeu, Gilberto foi tratar da transferência para Fortaleza. Havia comentado com Francisco José sobre a sua determinação de estudar na capital. O agrônomo disse que poderia ajudar. Gilberto também conversou com colega da escola que também havia concluído o colegial. Ele ofereceu hospedagem na casa de um irmão que já morava e estudava em Fortaleza. Lugar para ficar não seria problema.  Agora era juntar os documentos – e foi nesse momento que surgiu um contratempo que alterou definitivamente a sua vida e a sua identidade.

Gilberto recolheu certidões, o diploma de conclusão do colegial, folha corrida da Polícia para fazer a matrícula no Liceu do Ceará, em Fortaleza, quando percebeu que em um dos registros não aparecia o nome completo – haviam suprimido Gilberto, por conta do nome que constava em seu exame de admissão no colegial, descobriu depois. A solução foi solicitar um novo registro no cartório do distrito do Encantado, mas exatamente o livro que registrava o seu nascimento havia sido destruído num incêndio. O cartório refez o livro e emitiu o registro, mas seu nome já não era o mesmo.

José Gilberto Guimarães Nobre passou a ser José Nobre Guimarães. Com a mudança para Fortaleza, o próprio nome também mudou.

A vida também.

 

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