ESTUDO, TRABALHO E POLÍTICA
No início de 1977, a chegada definitiva de José Nobre Guimarães a Fortaleza dava a impressão de que seria fácil e tranqüila – afinal, a questão da moradia se encaminhava bem, pois havia a casa do agrônomo Francisco José e o apartamento do Mitotônio, o irmão do colega de escola em Senador Pompeu, que acabou sendo a melhor opção. O prédio, porém, era um treme-treme localizado na avenida Duque de Caxias, no Centro da cidade, local de encontros de mulheres de programa e de outras atividades suspeitas. A mudança, assim, foi penosa e traumática, um choque pessoal que assumiu contornos dramáticos.
As novidades eram tantas que chegaram a abalar Guimarães psicologicamente. Sentiu medo – ou melhor, medos: medo de o dinheiro acabar, medo da cidade grande, medo de fracassar. Guimarães chorava quando ficava sozinho no apartamento, olhando pela janela aquele monstro desconhecido e ameaçador que a metrópole representava para ele.
As visitas ao irmão José Genoino na prisão foram um problema, mas, também, a solução. Os poucos amigos que começara a fazer em Fortaleza temiam um maior envolvimento com um irmão de preso político e alguns deles chegaram a se afastar de Guimarães, com receio da polícia e de serem fichados.
Por outro lado, foi durante as visitas que conheceu pessoas que o ajudariam muito dali para frente. Uma delas foi dona Lourdes Albuquerque, mãe de Mário Albuquerque, também encarcerado no presídio Paulo Sarasate. Depois de 15 dias morando com Mitotônio, Guimarães se transferiu para a casa de dona Lourdes e lá viveu durante três meses. Depois, por orientação do próprio Genoino, que não via conveniência naquela situação, foi morar na Casa do Estudante. E por um tempo bem mais longo, que se estendeu até 1982.
A chegada à primeira moradia em Fortaleza teve também seus contratempos. Para os moradores antigos, Guimarães seria um “terrorista” exatamente pelo fato de ter um irmão preso político. Na época, no entanto, sequer iniciara sua militância. Mesmo assim, foi na Casa do Estudante que Guimarães começou a organizar a sua vida em Fortaleza, já aluno do Liceu do Ceará.
Naquele período, se aproximou de três mulheres que se tornaram grandes amigas e foram verdadeiros sustentáculos em momentos tormentosos. Valda Albuquerque recebia Guimarães freqüentemente em casa para o almoço e o jantar e até arranjou alguns trocados para o estudante recém-chegado do interior. Maria Luíza Fontenele, então chefe do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará, também foi generosa e emprestou cem cruzeiros ao ainda desempregado irmão do José Genoino, para ele pagar quando pudesse.
Passava-se quatro meses desde a chegada de Guimarães a Fortaleza quando dona Diva, secretária geral do Colégio Rui Barbosa, conseguiu para ele um emprego de datilógrafo. Um presente e tanto. Com uma bolsa integral concedida pelo diretor do colégio, transferiu sua matrícula e passou a trabalhar durante o dia e a estudar à noite. Dessas três mulheres que o estenderam a mão em um momento difícil Guimarães ainda lembra com sincera gratidão.
Com a vida estabilizada, decidiu iniciar a militância política depois de ler um panfleto do Comitê Brasileiro pela Anistia, coordenado no Ceará pela professora Nildes Alencar e do qual participavam, entre outras, Maria Luíza Fontenele e Rosa da Fonseca. O que moveu Guimarães foi o desejo de contribuir para a libertação do irmão preso, o que de fato logo aconteceu – em 18 de abril de 1977 José Genoino ganhou a liberdade e, no dia seguinte, já estava de volta a São Paulo. Guimarães permaneceu no CBA, no qual ficou conhecido, ao lado de Wilson Albuquerque e de Alfieres, como um dos “três mosqueteiros”. Foram para rua pichar muros, distribuir panfletos, fazer passeata, o que invariavelmente terminava com uma carreira da polícia. Não chegou a ser preso, mas a agitação do período ajudou-o a perder aquele medo inicial – estava ambientado na cidade grande, enfim. E definitivamente apaixonado por Fortaleza.
Em 1978, Guimarães participou da campanha a deputada estadual de Maria Luíza Fontenele, eleita naquele ano pelo MDB. Em 1979, teve uma passagem pelo movimento estudantil secundarista atuando no Centro Estudantal Cearense – CEC.
Nesse meio tempo, Guimarães viveu um episódio marcante. Em 1978, o governo militar apresentou o nome do general João Batista Figueiredo à sucessão do presidente – e também general – Ernesto Geisel. Na Arena, partido da situação, surgiu uma dissidência e o senador mineiro José de Magalhães Pinto, antigo insatisfeito com os rumos que o regime assumira, lançou-se como postulante civil ao cargo, logo retirada em favor do nome do general da reserva Euler Bentes Monteiro, candidato homologado pelo partido de oposição, o MDB.
Atento à conjuntura política, Guimarães resolveu arriscar um lance ousado. Escreveu uma carta a Magalhães Pinto contando sobre sua militância política e demonstrando conhecer a atuação do parlamentar. Ao final, pedia um emprego no Banco Nacional, de propriedade do senador. Dias depois, na Casa do Estudante, Guimarães recebeu um telegrama pessoal de Magalhães Pinto, que o orientava a procurar o gerente do banco em uma agência de Fortaleza. No dia seguinte, vestiu a melhor roupa, que incluía uma calça boca de sino e um par de sapatos cavalo de aço, a moda de então, e foi ter com o gerente.
- Que história é essa de escrever para o senador, rapaz?
Guimarães deu suas explicações e o gerente revelou que Magalhães Pinto enviara um memorando ao filho, presidente do banco, recomendando o nome daquele jovem estudante para um emprego em Fortaleza.
- Você quer fazer carreira no banco?
- Quero, garantiu Guimarães, que já estava envolvido com o movimento estudantil e com o MDB.
Guimarães se submeteu a um pequeno teste e na mesma semana começou a trabalhar como escriturário. A diferença entre o salário de datilógrafo no Colégio Rui Barbosa e os vencimentos no banco era abissal para ele. No antigo emprego, recebia um salário mínimo, que na época era de mil e quinhentos cruzeiros. No novo emprego passou a receber mais de cinco mil cruzeiros. Os diretores do colégio entenderam a situação e decidiram fazer a demissão sem justa causa, pagando todos os direitos trabalhistas, e, ainda por cima, mantendo a bolsa de estudos.
Pouco mais de um ano depois, em setembro de 1979, já na função de caixa e a caminho de assumir uma gerência, não foi por questões econômicas, mas pela associação entre um gesto de compromisso com a militância política e um rompante juvenil que o fez atender ao convite das lideranças dos bancários da época para a deflagração da greve da categoria, em ato na Praça do Ferreira. Na ocasião, Guimarães assumiu a palavra em praça pública e fez um discurso inflamado condenando os bancos. A resposta foi rápida e incontestável: 15 dias depois, recebia o comunicado de demissão. Para ele, o mundo caiu – mais uma vez.
Arrependido e abatidíssimo pela demissão, passou a noite chorando na casa de Maria Luíza Fontenele. Ela tentava consolá-lo, dizendo que não seria abandonado e aconselhou-o a estudar para o vestibular que aconteceria no fim do ano. Com a indenização do banco, de espantosos setenta e oito mil cruzeiros, percebeu que poderia se dedicar aos estudos. Decidiu aceitar o conselho de Maria Luíza, inscrevendo-se em um curso intensivo no antigo Colégio São João, ainda sem saber para que faculdade prestar o concurso. Na verdade, a decisão só seria tomada mesmo na hora da inscrição, que foi feita junto com o colega de Casa do Estudante, Tácito Cunha Sousa.
- Vamos nos inscrever para Engenharia?, propôs Tácito.
- Não, você se inscreve para Engenharia e eu me inscrevo para Direito, sugeriu Guimarães.
Nem o menino Gilberto nem o rapaz Guimarães jamais haviam especulado uma carreira de advogado, mas passou naquele mesmo ano no vestibular da Universidade Federal do Ceará e, no início de 1980, já era aluno da Faculdade de Direito, onde foi contemporâneo de futuros companheiros do Partido dos Trabalhadores no Ceará, entre os quais Ilário Marques, Alberto Fernandes e Artur Bruno. Em 1981, Guimarães já era eleito secretário-geral do Centro Acadêmico Clóvis Beviláqua e a participação no movimento estudantil se intensificou a ponto de estender a conclusão do curso para bem além do período normal. Ao perceber que estava se atrasando muito nos estudos, amenizou o ritmo da militância e, em 1984, se dedicou quase que exclusivamente ao curso.
Mas veio, então, 1985 – e com o novo ano a candidatura da amiga Maria Luíza Fontenele à Prefeitura de Fortaleza pelo PT.
Uma vez mais os estudos foram relegados a segundo plano e a conclusão do curso só aconteceria em 1988.
Rodapé